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O virologista Gúbio Soares Campos trabalha no Laboratório de Virologia da UFBA
No começo do ano passado, uma
doença misteriosa começou a chamar a atenção em um hospital de Camaçari, na
Bahia.
Ainda não sabiam que se tratava da zika, e a doença ganhou o apelido de
“síndrome de Camaçari”. “O diretor do hospital [Santa Helena, que
registrava casos da “doença misteriosa”] me chamou para tentar
esclarecer o caso. Achavam que era a água que contaminava as pessoas.
Quando fui lá, percebi que não era a água e disse que era doença nova,
que tínhamos que tentar descobrir, diz o médico infectologista Antonio
Carlos Bandeira.
“Todos estavam procurando algum vírus
diferente e não estavam encontrando. Eu suspeitava que era arbovirose,
então enviei as amostras para o Gúbio [Soares Campos, coordenador do
Laboratório de Virologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia)] e pedi
para ele concentrar as buscas em um arbovírus [vírus transmitidos por
insetos]”.
Os testes em laboratório começaram a ser
feitos em fevereiro de 2015, quando a Secretaria de Saúde da Bahia foi
notificada pelas unidades sobre casos de “doença exantemática
indeterminada” (doenças que incluem manifestações na pele, mas sem
diagnóstico).
A doença misteriosa fazia com que
pacientes apresentassem manchas no corpo, febre e coceira. Pelas
características, os pesquisadores já acreditavam se tratar de uma doença
que fosse transmitida por um inseto. Então, os pesquisadores da UFBA
começaram a fazer testes para doenças pouco conhecidas no Brasil.
Mayaro? Febre do Nilo Ocidental? Não, Zika!
Foram feitos testes inicialmente para
doenças como Febre de Mayaro e Febre do Nilo Ocidental. Na época, eles
acreditavam que era mais provável que essas doenças tivessem chegado ao
país. O vírus da zika foi o último a ser testado. “Nós testamos cinco
arbovírus: mayaro, vírus do Nilo ocidental e outros três que não recordo
o nome. Pegamos o material e testamos para todos que tinham um
quadro clínico parecido. Então, como foi dando negativo, íamos
excluindo, e só nos restava o vírus da zika”, diz Gúbio Soares Campos.
No dia 28 de abril de 2015, pela primeira
vez no país, os pesquisadores confirmaram a infecção de pessoas pelo
vírus da zika no país. Nos testes, oito das 24 amostras de pacientes de
Camaçari deram positivas para a doença. “Vimos que o quadro clínico
estava compatível com o que estava na literatura”, diz Campos.
“A gente não imaginava isso, porque não
tinha relato. Não tinha nada escrito sobre zika na literatura, era
pouquíssima coisa”, diz Bandeira. “A gente até ficou preocupado porque
na Polinésia Francesa havia relatos de aumentar casos da
síndrome de Guillain-Barré“, completa.
O infectologista diz que não há certeza
de que o vírus da zika chegou ao Brasil pela Bahia. “Tivemos e temos
muitas hipóteses em relação à chegada da zika, sabemos que tivemos ao
mesmo tempo casos aqui, em
Pernambuco,
Rio Grande Norte e
Paraíba. Já tínhamos relatos de casos com sintomas similares no final de 2014, mas são conjecturas, não há comprovação”.
De lá para cá muita coisa mudou no conhecimento do vírus. Sabe-se que ele pode ser encontrado na
saliva, sêmen e urina e
atravessa a placenta na gestação.
Agora, a luta de Gúbio Soares Campos e
sua equipe é conhecer melhor o vírus da zika. “Estamos estudando a
genética do vírus, a característica dele, como é a resposta imune.
Queremos saber se uma pessoa que teve a doença poderá contrair de novo.
Mas ainda falta muito trabalho, é muito cedo”, diz.
Fonte: Carlos Madeiro. Colaboração para o UOL, em Maceió.